Soli Deo Glória – Somente a Deus Glória

Soli Deo Glória – Romanos 11:33-36

Como já vimos, os Solas são slogans, para se usar um termo mais contemporâneo, que formam a base dos princípios da Reforma Protestante. Apontam para princípios bíblicos e fomentam a reflexão doutrinária. Contudo é necessário alertar que “os Solas” apontam como símbolo, mas não substituem a reflexão e a leitura devocional das Escrituras.

Em nossa última reflexão sobre os Solas estudaremos brevemente  o: “Soli Deo Gloria” que vem responder às perguntas: Qual é o sentido da vida? Qual é a finalidade da vida? De fato, a primeira pergunta do Grande Catecismo de Westminster é: Qual é o fim principal do Homem? Que trás como resposta: o fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e alegrar-se n’Ele para sempre.

Portanto, a Criação está a serviço da Glória de Deus e o Ser Humano foi também criado para louvor, honra e a Glória de Deus. Há, no entanto  um problema, pois toda a Criação está plenamente completa, adequada, apropriada e adaptada perfeitamente ao seu propósito de trazer Glória, honra e Louvor ao Criador, exceto o ser humano.

O homem é a única criatura que Deus fez cujo ser não está em si mesmo, e que por si mesmo não é nada. A ‘canicidade’ do cão está no cão, mas a ‘humanidade’ do homem não está no homem. Está na sua relação com Deus. O homem é homem porque reflete Deus, e somente quando ele assim o faz.[i]

Ou seja, nossa real humanidade se encontra em Cristo, e n’Ele e apenas n’Ele encontramos respaldo, legitimidade e eficácia em cumprir o propósito para o qual fomos criados.

O texto base de nossa reflexão é sem duvida uma das mais lindas doxologias encrustradas nas Escrituras. Ela é um pensamento elevado, uma conclusão poética composta pelo Apóstolo Paulo em resposta ao debate teológico que ocorre, sobretudo no capítulo 9 da carta aos Romanos.

Paulo finaliza seu debate e chega a uma razão ou conclusão teológica sobre o poder, as prerrogativas e a soberania de Deus. Evidentemente qualquer proximidade que nos leve a encontrar tais elementos só poderia resultar em glorificação, reconhecimento e submissão a Deus.

Destacam-se três pilares nas palavras de glorificação de Paulo:

  • Nos versos 33 e 34 há o reconhecimento de que Deus será sempre mais sublime. Deus constitui-se em inexaurível plenitude, inesgotável sabedoria e em contínuo mistério revelado graciosamente e relacionalmente na pessoa de Cristo. Deus está além de qualquer concepção humana, filosófica, sociológica, ideológica, antropológica ou política.
  • No Verso 35 há o reconhecimento da justiça divina. Deus é Justo e Fiel aos seus decretos. Deus não deve nada a ninguém e por sua vez ninguém tem créditos com Deus. Ninguém pode cobrar ou questionar a Deus sobre coisa alguma. No entanto Deus sempre age em amor e sua misericórdia e compaixão se antecipam à sua ira. Contudo, é prerrogativa divina escolher e rejeitar, levantar e abater, salvar ou condenar.
  • O verso 36 finaliza com o reconhecimento da suficiência divina. Tudo se inicia n”Ele e n’Ele tem seu fim derradeiro. Tudo que ele faz, trás finalmente Glória a Seu Santo Nome. Ele faz vasos para honra e vasos para desonra e ambos trarão a seu tempo e propósito Glória e Majestade a Ele. Afinal, Deus se utiliza das contingências humanas para se fazer cumprir seus desígnios eternos e assim ser glorificado.

Ao contemplarmos os pilares da Sublimidade, Justiça e Suficiência divinos resta-nos a glorificação, reconhecimento e submissão total a Ele. Na realidade as doutrinas da Eleição e Predestinação debatidas em Romanos por Paulo e concluídas com sublime exaltação em sua doxologia, exaltam a Deus de tal forma que não sobra espaço para homem.

Em tempos de antropocentrismo explícito, “Soli Deo Glória” resgata a premissa de que somos feitos para a Glória de Deus de tal modo que nada de nós e tudo d’Ele deve ser objeto de nosso reconhecimento.

Na prática, Soli Deo Glória deve partir de uma vida centrada em Cristo, de uma kenosis ou esvaziamento do homem natural para que se manifeste o homem espiritual, da rejeição consciente e constante dos ídolos e da idolatria. Na realidade, o maior nível de idolatria, depravação e desobediência relatados em Romanos capítulo 1, se deve ao fato de seus efeitos serem causados pelo não cumprimento da finalidade humana. São resultados de não se dar Glória a Deus.

Uma sociedade que não dá a Glória devida a Deus se destrói, uma família que não dá a Glória devida a Deus se desestrutura, um ser humano que não dá a Glória devida a Deus se deteriora e se dissolve em desumanidade.

Em Cristo,


Pr. Anderson de Alvarenga

Referencia

[i] Daniel Thambyrajah Niles – Studies in Genesis – 1958